
O filme Sociedade dos Poetas Mortos é um dos filmes que marcaram toda uma geração inteira. Mesmo que essa geração não se tenha enveredado pelos rumos da poesia mágica e grandiloqüente de Walt Whitman, mesmo que esta geração não tenha vivido os motes de Thoreau sobre a vida e a escolha de caminhos nesta, mesmo que não tenha seguido fielmente as pelvras de Frost, este filme não pode ter passado em branco de modo algum.
Mesmo que nada tenha sido pensado em profundidade por estes jovens, alguma mensagem de inconformismo deve ter se alojado no inconsciente desta geração. Nem me lembro mais quantas vezes vi este filme, mas posso dizer que para cada vez que o assisto noto um aspecto importante e diferente que não havia notado na vez pessada, que eu, não sei porque, não havia notado na vez anterior.
Desta vez, munido da leitura deste livro (um pouco salgado, mas que vale cada centavo para quem deseja se aprofundar neste assunto tão fascinante), pude fazer mais uma interpretação deste filme. Nietzsche, como sabemos, dá um valor preponderante a arte, ao artista. Todo filósofo é um artista, e toda filosofia deve ser uma expressão artística. Basicamente, esta é a mensagem do profundo estudo realizado nestas 600 e impressioantes páginas escritas pelo espanhol Luis Enrique de Santiago Guervós.
Aliás, meu volume me foi presenteado pelo prórpio autor, que me enviou pelo correio no ano passado. Autografado, é claro, como não poderia deixar de ser.
Notadamente, a estética nietzscheana se orienta no sentido de recuparar as forças humanas que foram soterradas pela metafísica, pela religião, pela vulgaridade e, nas palavras de Nietzsche, pelo Estado (ele já havia pressentido que o Estado era um inimigo da cultura - sobre isso, leia-se suas Intempestivas).
Sua estética é, antes de mais nada, prática. Deste modo, renega Hegel, filósofo que acreditava ser a estética puramente conceitual, essencialmente teórica. Para Nietzsche, a estética deveria ser vivida, e ninguém melhor para fazer isso do que os artistas, os verdadeiros filósofos (toda vez que leio Nietzsche e lembro destas passgens que se encontram em grande parte no seu livro “Humano, demasiado Humano”, me recordo dos nossos “artistas”, que leêm Nizstche (e não tem vergonha de dizer isso em público!!), como se isso fosse uma permissão às sua bobagens - como diria John Huss antes de ser queimadona fogueira “Oh! Sancta Simplicitas!”).
Também deve salientar que um dos aspectos importantes nisso tudo é a noção do perspectivismo. Perspectivismo na filosofia nietzscheana significa a apreciação e análise dos diversos aspectos da realidade. Não basta o conhecimento. Mas sim os conhecimentos. Quando no seu Zaratustra diz que os deuses deveriam dançar ele diz isso, mas em outras palavras. O que importa é o não dogmatismo. A perspectiva é superior a qualquer realidade.
Assim, com estas idéias frescas na cabeça assisto o filme Sociedade dos Poetas Mortos. Na cena acima, em que vemos o professor Keating (interpretado pelo ator Robin Willians - quem sabe este nome não seja uma alusão ao poeta Keats?) em cima de sua mesa na sala de aula notamos esta noção nietzschena das artes. O que importa é o perspectivismo. A realidade, antes de mais nada, tem lados. Cabe ao filósofo-artista captá-la. Mas, como lembra Nietzsche, descobrir a realidade é superá-la. Nos superarmos significa dor, pois é muito mais cômodo a passividade intelectual.
Em outras palavras, é mais facil aceitar o dogmatismo passivamente do que descobrir a realidade e se descobrir com ela.
Neste momento o poeta Whitman entra em cena e diz:
O me! O life!… of the questions of these recurring; / Of the endless trains of the faithless–of cities fill’d with the foolish; / Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I, and who more faithless?) / Of eyes that vainly crave the light–of the objects mean–of the struggle ever renew’d; / Of the poor results of all–of the plodding and sordid crowds I see around me; / Of the empty and useless years of the rest–with the rest me intertwined; / The question, O me! so sad, recurring–What good amid these, / O me, O life? / Answer. / That you are here–that life exists, and identity; / That the powerful play goes on, and you will contribute a verse.
A partir de agora toda arte, toda filosofia, toda vida, toda idéia se fundem em um único desejo: o de libertação e de verdade.
Whitman, junto com Nietzsche, junto com Thoreau, junto com Robert Frost e Orácio caminham juntos a uma única meta, infinita e bela: o eterno desejo de liberdade e gozo.
Carpe Diem!