as crianças da guerra
6 Fevereiro , 2007 — Carlos José Teixeira[A.0022]
Ex-criança-soldado em conferência: Matar era como beber água (link)
“Tinha 12 ou 13 anos quando começou a matar. “Atirar contra quem quer que fosse tornou-se numa coisa tão fácil como beber um copo de água”, contou Ishmael Beah, hoje com 26 anos, aos participantes da Conferência Internacional ‘Libertemos as Crianças da Guerra’, que ontem começou em Paris, sob o patrocínio da UNICEF e do Estado francês.”
Obs: Isto deve ser dramático, especialmente para aqueles a quem ele ceifou a vida. Melhor fora que fizesse tiro ao prato ou fosse alí para a feira popular que SLopes desmantelou treinar a pontaria nas latas de cerveja. Como alternativa, o gun-shooter podia alternar e ir dando uns tirinhos nos próprios pés, joelhos e dedos para não estar sempre a matar concidadãos. Foi uma pena não ter pensado nisso antes…
[@ Macroscópio]
Bom… Confesso que não estou habituado a ler coisas deste género vindas do Rui Paula de Matos. O RPM tem o hábito de não ser politicamente correcto por obrigação, gosta de espetar farpas e muitas vezes acerta.
Desta, não foi o caso.
Caro Rui: Não sei se alguma vez recebeu treino militar. Não sei, tendo recebido, em que condições o obteve. Eu falo por mim. Tive esse tipo de treino em condições bastante duras e sei o que a uniformização, a descaracterização do indivíduo, a ameaça redirigida, o “espírito de corpo”, a lavagem cerebral fazem a um adulto por volta dos 18 anos de idade.
Posso dizer-lhe, caro Rui, que passadas umas semanas estava pronto para tudo e não me atrevo sequer a pensar em qual seria o meu papel num teatro de guerra tão selvagem como o foi o da Serra Leoa e outros do género. Posso dizer-lhe que, segundo o que tive oportunidade de sentir e não compreender na altura, deve ser muito fina a linha que separa um soldado de um assassino em determinadas condições.
Não quero, por isso, arrogar-me o direito de tentar sequer compreender o que se passará com uma criança submetida a processos ainda mais violentos do que alguns adultos conseguem suportar. Tente aceder, por exemplo, a alguns vídeos de alguns treinos dessas crianças e reflicta acerca do assunto.
É que nas guerras há sempre mortos. E as guerras não são tão limpas como no filme mais realista que possamos ver. As guerras têm cheiro, têm o fedor dos mortos abertos no campo de batalha, têm o fedor a merda dos que ficam estarrecidos, têm o fedor do medo dos que vêm os soldados aproximarem-se e não têm para onde fugir com as suas crianças, as mesmas que são levadas para combater. É que nas guerras há o tacto, aquele que nos ensina a calcular a folga do gatilho, o mesmo que nos ensina a afagar os cabelos de uma criança. O mesmo tacto que estas crianças usam para detectar os estilhaços que lhes entraram na carne, o mesmo tacto que esta canalha usa para detectar as minas que os adultos não vão levantar, o mesmíssimo tacto que usariam, se não fossem levados, para acariciar a sua mãe e que, afinal usam apenas para meter desesparadamente as tripas para dentro de um qualquer soldado que grita e se borra em desespero.
Estas crianças são vítimas, tão vítimas como os que mataram e torturaram. Foram habilmente despersonalizados, lavados, mirrados em todo o seu ser e a única coisa que aprenderam na vida, na sua curta vida, foi a matar e a ver morrer.
Caro Rui, se viu a reportagem até ao fim, há-de ter visto que estes putos também sabem brincar na praia. Apesar de tudo, depois de tudo.
Abraço,
CJT